Outubro Rosa nasceu antes do laço e precisa ir além dele
- 02/10/2026
Campanha colocou o câncer de mama no centro da conversa, aumentou a procura pela mamografia e ajudou a quebrar o silêncio. Mas os números mostram que conscientização sem acesso ainda não é suficiente
Antes de virar laço, iluminação de monumentos e campanhas nas redes sociais, o Outubro Rosa nasceu com uma proposta muito prática: falar sobre uma doença que ainda era cercada de silêncio e levar mais mulheres aos serviços de saúde.
A primeira mobilização organizada aconteceu nos Estados Unidos, em 1985. Foi uma campanha de uma semana criada pela Sociedade Americana de Câncer em parceria com a divisão farmacêutica da Imperial Chemical Industries, fabricante do tamoxifeno, medicamento utilizado no tratamento do câncer de mama.
O laço rosa só apareceu depois. Em 1991, a Fundação Susan G. Komen distribuiu laços cor-de-rosa durante uma corrida em Nova York. Mas existe uma parte menos conhecida dessa história: antes do rosa, houve um laço cor de pêssego.
A americana Charlotte Haley produzia os laços em casa e os entregava com uma mensagem cobrando mais investimento público na prevenção do câncer. Quando empresas e veículos de comunicação quiseram transformar a ideia numa grande campanha comercial, ela recusou. Pouco depois, o laço ganhou a cor rosa e foi distribuído em larga escala pela revista Self e pela Estée Lauder. Nascia o símbolo mundialmente conhecido.
No Brasil, a primeira ação pública aconteceu em 2002, quando o Obelisco do Ibirapuera, em São Paulo, recebeu iluminação rosa. A mobilização cresceu nos anos seguintes, e o Instituto Nacional de Câncer passou a participar oficialmente do movimento em 2010.
A campanha deu resultado? Sim, mas não sozinha e nem de maneira permanente.
Um estudo que analisou dados nacionais entre 2017 e 2021 encontrou um aumento de 33% nas mamografias realizadas em outubro, 39% em novembro e 22% em dezembro, na comparação com os outros períodos do ano. Outro levantamento mostrou que as buscas na internet por “câncer de mama” e “mamografia” passaram a registrar picos recorrentes em outubro.
A força da comunicação é evidente. O problema é que o efeito costuma durar pouco. Estudos mostram que, cerca de dois meses depois, o interesse volta ao nível habitual. É como se o país lembrasse das mamas em outubro e se distraísse novamente no restante do ano.
Também houve avanço na realização de exames. Segundo o IBGE, a proporção de mulheres entre 50 e 69 anos que havia feito mamografia nos dois anos anteriores subiu de 54,3% em 2013 para 58,3% em 2019.
No Nordeste, o crescimento foi maior: de 32,7% para 49,5%. Ainda assim, menos da metade das mulheres dessa faixa etária estava com o exame em dia. E não é possível atribuir toda essa evolução ao Outubro Rosa. Ampliação da oferta, políticas públicas, atuação dos profissionais de saúde e avanços no tratamento também fazem parte dessa mudança.
Em 2024, o SUS realizou 4,4 milhões de mamografias. Quatro milhões foram exames de rastreamento feitos em mulheres sem sintomas. O número é expressivo, mas não significa que o problema esteja resolvido.
Mais de 40% dos casos atendidos nos hospitais brasileiros ainda são diagnosticados nos estágios III ou IV, quando a doença já está avançada. Em 2023, o Brasil registrou 20.165 mortes por câncer de mama feminino — uma média de 55 mortes por dia.
Para 2026, o INCA estima 78.610 novos casos no país. São aproximadamente 215 diagnósticos por dia. Na Bahia, são esperados 4.480 casos no ano, cerca de 12 por dia. Somente em Salvador, a estimativa chega a 1.340 novos casos, quase quatro diagnósticos diários.
Esses números mostram por que a campanha continua necessária. Mas também exigem uma mensagem mais clara.
Existe uma confusão sobre a idade para começar a mamografia. Desde setembro de 2025, mulheres entre 40 e 49 anos podem solicitar o exame pelo SUS mesmo sem sintomas, mediante decisão compartilhada com um profissional de saúde. Isso ampliou o acesso a partir dos 40 anos.
Mas o rastreamento populacional prioritário recomendado pelo Ministério da Saúde continua sendo a mamografia a cada dois anos para mulheres entre 50 e 74 anos. Já a Sociedade Brasileira de Mastologia, o Colégio Brasileiro de Radiologia e a Febrasgo recomendam o exame anual a partir dos 40.
Não se trata, portanto, de dizer simplesmente que a idade caiu de 50 para 40 anos. Existem orientações diferentes. A decisão deve considerar idade, histórico familiar, condições individuais, benefícios e possíveis riscos.
O que não pode esperar é a investigação de um sinal suspeito. Nódulo endurecido, alteração no formato do mamilo, secreção com sangue, retração da pele, aspecto de casca de laranja ou mudança persistente na mama precisam ser avaliados em qualquer idade.
Outubro Rosa também não deveria se resumir ao antigo discurso do autoexame. Conhecer o próprio corpo é importante, mas não substitui avaliação profissional nem mamografia quando indicada.
A campanha já provou que consegue chamar atenção, colocar a doença em pauta e levar mais mulheres aos exames. O desafio agora é transformar a mobilização de um mês em atendimento durante o ano inteiro.
Porque iluminar um prédio de rosa é bonito. O que realmente muda uma vida é encontrar atendimento, realizar o exame, receber o diagnóstico rapidamente e começar o tratamento no tempo certo.
Redação Coisas da Dina
Foto: ilustrativa


