Toda sexta-feira é dia de Bonfim, mas a primeira do mês é especial
- 02/10/2026
Na Colina Sagrada, pedidos, promessas e agradecimentos atravessam o catolicismo, o candomblé e a cultura popular de Salvador
Na Bahia, sexta-feira é dia de subir a Colina Sagrada.
Não é preciso ter comprado um carro, recebido as chaves de uma casa ou alcançado uma grande conquista. Muitas pessoas vão ao Bonfim simplesmente porque chegou a sexta-feira. Vão assistir à missa, agradecer pela semana, fazer uma oração, pedir proteção ou renovar a esperança.
Mas a primeira sexta-feira do mês tem um significado ainda mais especial. Para muita gente, é dia de subir. Quase um compromisso com a fé, com a tradição e com aquilo que foi aprendido dentro de casa.
Algumas pessoas levam a chave do carro novo. Outras, a chave da casa recém-comprada, documentos, fotografias, carteiras de trabalho ou objetos que representam uma conquista. Há quem esteja pagando uma promessa. Há quem vá agradecer por uma graça alcançada. E há quem simplesmente sinta que o mês precisa começar com as bênçãos do Senhor do Bonfim.
Mas por que o Bonfim?
Será devoção, tradição, pagamento de promessa ou apenas um costume que atravessa gerações? Na Bahia, pode ser tudo isso ao mesmo tempo.
Nem todas as pessoas que chegam à Colina se apresentam como devotas do Senhor do Bonfim. Algumas nem frequentam a Igreja Católica. Ainda assim, quando compram um carro, recebem as chaves de uma casa, conseguem um emprego ou vencem uma doença, sentem vontade de ir ao Bonfim.
Não se trata exatamente de uma obrigação. É um gesto aprendido acompanhando os pais e os avós, ouvindo histórias e repetindo costumes. Uma maneira de agradecer pelo que chegou, pedir proteção para o que começa e entregar a Deus aquilo que não conseguimos controlar.
A sexta-feira também carrega um forte significado religioso. Para os católicos, é o dia ligado à Paixão de Cristo, representado no Senhor do Bonfim. Nas religiões de matriz africana, a sexta-feira é dedicada a Oxalá, orixá associado ao branco, à paz, à criação e à sabedoria.
É nesse encontro que aparece uma das marcas mais profundas da religiosidade baiana. Senhor do Bonfim e Oxalá não são a mesma divindade, mas foram aproximados ao longo da história pelo chamado sincretismo religioso. Essa aproximação também nasceu da resistência dos africanos escravizados, que precisaram encontrar formas de preservar suas crenças diante da perseguição e da imposição do catolicismo.
Por isso, é importante não tratar o candomblé como um detalhe dentro de uma tradição católica. Oxalá é Oxalá. Senhor do Bonfim é Senhor do Bonfim. Mas, na vida de muitos baianos, essas referências passaram a conviver, dialogar e ocupar o mesmo território afetivo.
Salvador costuma ser apresentada como a cidade das 365 igrejas, uma para cada dia do ano. O número atravessou o tempo, virou música, frase turística e parte do imaginário da cidade. Mas nunca funcionou como uma contagem exata.
Levantamentos mais recentes falam em um número ainda maior de templos católicos, dependendo do que entra na conta: igrejas, capelas, paróquias e comunidades. As 365 igrejas são mais uma imagem poética de Salvador do que um censo religioso.
E onde entram os terreiros nessa história?
A conta não pode ser feita como uma disputa para saber se existem mais igrejas ou mais terreiros. São espaços com trajetórias muito diferentes. As igrejas católicas ocuparam, desde o período colonial, pontos centrais e visíveis da cidade. Muitos terreiros cresceram dentro de casas, quintais e áreas afastadas, enfrentando perseguição, racismo religioso e dificuldade até para serem reconhecidos oficialmente.
O mapeamento municipal já registra centenas de terreiros em Salvador, mas esse cadastro ainda não mostra toda a realidade. Muitos permanecem fora das estatísticas, embora estejam presentes na história, na comida, na música, nas festas, na linguagem e na maneira como a cidade se relaciona com o sagrado.
Talvez seja por isso que a Colina Sagrada acolha pessoas tão diferentes. Há quem vá para assistir à missa. Há quem vista branco por Oxalá. Há quem leve uma chave para ser abençoada. Há quem cumpra uma promessa. E há quem suba a Colina apenas porque é sexta-feira.
Na Bahia, a fé nem sempre cabe numa única definição.
Toda sexta-feira guarda esse chamado. Mas a primeira sexta-feira do mês parece abrir uma porta nova: é tempo de agradecer pelo caminho percorrido, pedir proteção para os dias que chegam e colocar a vida diante de algo maior.
Talvez a pergunta não seja apenas qual religião leva alguém ao Bonfim. A pergunta é por que, mesmo com tantas mudanças, continuamos precisando de um lugar onde possamos agradecer, renovar a esperança e pedir proteção para aquilo que amamos.
Redação Coisas da Dina
Foto: Ilustrativa


