​Homens ainda vão pouco ao médico, e saúde sexual continua cercada de tabus

  • 24/09/2026

​Homens ainda vão pouco ao médico, e saúde sexual continua cercada de tabus

Levantamentos apontam baixa frequência de consultas no Brasil e mostram que parte dos homens só procura atendimento quando considera necessário; vergonha e receio de falar sobre questões íntimas ainda pesam nessa decisão

Ir ao médico antes que alguma coisa esteja errada ainda não faz parte da rotina de muitos brasileiros. E, entre os homens, essa distância dos consultórios ganha um componente a mais quando o assunto envolve sexualidade.

Dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), reunidos pela Visual Capitalist, colocam o Brasil entre os países com menor número médio de consultas médicas por habitante. O levantamento citado aponta uma média próxima de duas consultas por pessoa ao ano e coloca o país na 35ª posição entre os analisados.

Quando se olha especificamente para o comportamento masculino, outros dados ajudam a entender parte dessa relação com os cuidados de saúde. Na pesquisa Saúde do Homem Brasileiro: HPV e Vacinação, realizada pela Ipsos em parceria com a MSD, 27% dos homens entrevistados disseram procurar um médico apenas quando consideram necessário.

Para o sexólogo Januário Mourão, mestre e doutor em Ciências Morfológicas, parte desse comportamento está ligada à maneira como muitos homens aprenderam a lidar com o próprio corpo e com a ideia de vulnerabilidade.

“Existe uma construção social da masculinidade que associa o homem à força, à resistência e à capacidade de resolver os próprios problemas sozinho. Isso pode fazer com que ele interprete a procura por ajuda como uma demonstração de fraqueza. Não precisamos esperar que o problema apareça para começar a prestar atenção na saúde”, afirma.

A dificuldade pode aumentar quando a conversa chega à saúde sexual. Alterações na ereção ou no desejo, dúvidas sobre infecções sexualmente transmissíveis e outras questões íntimas muitas vezes são acompanhadas de vergonha, medo de julgamento ou preocupação com o desempenho.

O problema é que evitar a conversa também pode adiar a avaliação de situações que precisam de acompanhamento profissional.

“A saúde sexual é um dos campos em que a cobrança pela autossuficiência aparece com muita força. Uma dificuldade de ereção, uma alteração no desejo ou uma dúvida sobre uma infecção podem ser interpretadas como sinal de fracasso”, explica Mourão.

O especialista chama atenção também para a importância de informação confiável e prevenção. Procurar atendimento não precisa começar somente quando surge uma doença ou um sintoma importante. Consultas de rotina, vacinação, exames indicados de acordo com idade e histórico de saúde e uma conversa aberta com profissionais também fazem parte desse cuidado.

Para Mourão, mudar essa relação passa inclusive por rever a ideia de que pedir orientação demonstra fragilidade. “Reconhecer limites, demonstrar vulnerabilidade e aceitar acompanhamento profissional também são formas de responsabilidade. Pedir ajuda não diminui a masculinidade.”

Talvez esteja justamente aí a mudança mais importante: fazer da prevenção uma coisa comum, sem constrangimento e sem precisar esperar o corpo dar um sinal de que alguma coisa não vai bem.

Texto: Redação Coisas da Dina

Foto: Divulgação 

Fonte: OECD / Visual Capitalist / Pesquisa Ipsos e MSD / Januário Mourão


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