Setembro tem gosto de caruru: tradição atravessa gerações na Bahia

  • 21/09/2026

Setembro tem gosto de caruru: tradição atravessa gerações na Bahia

Com a proximidade do dia 27, casas, terreiros e restaurantes mantêm viva uma celebração em que gastronomia, religiosidade, ancestralidade e memória se encontram

Setembro tem um significado especial à mesa dos baianos. À medida que o dia 27 se aproxima, o caruru volta a ocupar casas, terreiros, restaurantes e encontros de famílias em Salvador e em diferentes cidades do estado. A tradição ligada às celebrações de Cosme e Damião atravessou gerações e se transformou em uma das manifestações mais conhecidas do calendário cultural e religioso da Bahia.

Preparado à base de quiabo e tradicionalmente acompanhado de outras receitas da culinária baiana, o caruru de setembro está longe de ser apenas um prato típico. Em muitas casas, sua preparação está ligada a promessas, devoção e costumes aprendidos com mães, avós e bisavós. Há famílias que repetem o ritual há décadas e começam a organização dias antes para receber dezenas de pessoas.

A mesa pode reunir vatapá, acarajé, abará, feijão-fradinho, arroz, farofa e outras preparações, mas não existe uma composição única. Receitas e rituais variam conforme a família, a comunidade, o terreiro e a tradição religiosa de quem prepara. É justamente essa diversidade que ajuda a contar a história de uma celebração construída a partir do encontro entre diferentes referências religiosas e culturais.

Cosme e Damião são santos gêmeos da tradição católica, mas na Bahia sua celebração ganhou características próprias a partir do diálogo e do sincretismo histórico com religiões de matriz africana. A presença das crianças ocupa lugar importante nessas celebrações e uma das tradições mais conhecidas é a do chamado caruru dos sete meninos, no qual sete crianças são convidadas a comer juntas antes dos demais participantes.

As formas de realizar o ritual variam e não devem ser tratadas como se existisse um único modelo. O que se repete é a importância da comida compartilhada. O caruru é preparado para ser oferecido, dividido e servido, e essa característica ajuda a explicar por que a tradição conseguiu ultrapassar os espaços estritamente religiosos e se incorporar ao cotidiano cultural da Bahia.

Em Salvador, setembro também transforma o movimento de restaurantes, mercados e feiras. Quiabo, camarão seco, dendê, castanhas, amendoim e outros ingredientes ganham ainda mais procura, enquanto restaurantes, hotéis e espaços culturais incluem carurus em suas programações. A agenda turística oficial da cidade destaca justamente a semana de 21 a 27 de setembro como período de celebrações em diferentes pontos da capital.

Essa presença nos cardápios comerciais não eliminou o caruru feito em casa. Em muitos bairros, continua existindo a expectativa pelo convite de alguém que todos os anos abre a porta para familiares, vizinhos e amigos. Há também quem prepare para cumprir uma promessa, quem mantenha o costume recebido dos pais e quem simplesmente tenha incorporado o encontro à história da família.

A força dessa tradição ajuda a compreender por que falar da cozinha baiana apenas como gastronomia é insuficiente. Receitas carregam deslocamentos de povos, crenças, relações familiares, modos de preparar e conhecimentos transmitidos durante séculos. Muitas dessas técnicas chegaram até o presente sem nunca terem sido registradas em um livro de receitas: alguém aprendeu observando outra pessoa cozinhar e depois ensinou da mesma maneira.

No próximo domingo, 27 de setembro, haverá caruru em diferentes lugares da Bahia. Alguns serão preparados para centenas de pessoas; outros, para uma pequena reunião familiar. Uns terão caráter essencialmente religioso, outros estarão nos restaurantes da cidade. Em comum, carregam uma tradição que permanece viva porque continua sendo praticada, compartilhada e transmitida.

Texto: Redação Coisas da Dina

Foto: Divulgação


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