​Hiperconectados, mas sozinhos: quando ter muitos contatos não significa ter com quem contar

  • 14/09/2026

​Hiperconectados, mas sozinhos: quando ter muitos contatos não significa ter com quem contar

É possível passar o dia inteiro trocando mensagens, participar de vários grupos, acompanhar centenas de pessoas nas redes sociais e, ainda assim, chegar ao fim do dia com a sensação de que não existe ninguém para quem ligar quando as coisas não vão bem.

Esse é um dos paradoxos da vida contemporânea. Nunca foi tão fácil manter contato, mas isso não significa, necessariamente, que as pessoas estejam construindo relações capazes de oferecer acolhimento, confiança e apoio.

A discussão ganha ainda mais importância em setembro, mês dedicado à prevenção do suicídio e à valorização da vida. Falar de saúde mental também significa olhar para a qualidade dos vínculos que cada pessoa consegue estabelecer e para a existência — ou ausência — de uma rede de apoio.

“Tecnologia facilita o contato, mas vínculo é outra coisa. Para que uma relação se transforme em uma fonte de apoio, são necessários elementos como confiança, reciprocidade, disponibilidade e acolhimento”, explica Jussara Aguiar, psicóloga e coordenadora do curso de Psicologia da UniFG Bahia, integrante da Ânima Educação.

Quando a conexão aumenta, mas a proximidade diminui

As redes sociais podem ampliar o contato entre as pessoas, mas também podem criar uma sensação enganosa de proximidade.

A exposição constante à vida aparentemente perfeita dos outros, a busca por aprovação, o medo da rejeição e a dificuldade de mostrar vulnerabilidades podem fazer com que muitas relações permaneçam na superfície.

O problema, portanto, não está simplesmente no uso das redes sociais. A questão aparece quando a quantidade de interações começa a esconder a falta de espaços seguros para falar sobre o que realmente importa.

Ter muitos seguidores não significa necessariamente ter alguém disponível para ouvir.

Solidão não é o mesmo que estar sozinho

Também é importante não confundir solitude com sofrimento.

Há momentos em que estar sozinho é uma escolha saudável. A pessoa pode precisar de silêncio, privacidade ou simplesmente de um tempo consigo mesma.

O sinal de alerta surge quando o isolamento não é escolhido, torna-se persistente e começa a afetar a rotina.

Nessas situações, podem aparecer tristeza, ansiedade, desesperança, baixa autoestima, alterações no sono, perda de interesse por atividades que antes davam prazer e uma sensação cada vez maior de não pertencimento.

O afastamento pode ainda diminuir justamente os recursos que ajudam alguém a atravessar períodos difíceis: uma conversa com uma pessoa de confiança, a participação em atividades coletivas ou a certeza de que existe alguém disponível para ouvir.

Mudanças de comportamento merecem atenção

Uma mudança repentina na maneira de agir também pode ser um sinal de que algo não vai bem.

“Quando uma pessoa que costumava participar de atividades passa a se afastar, perde o interesse pelas coisas, demonstra desesperança ou faz manifestações relacionadas à morte, é importante não ignorar esses sinais. Eles não permitem, isoladamente, concluir que existe risco de suicídio, mas indicam a necessidade de aproximação e escuta”, afirma Jussara.

A orientação é não esperar que a pessoa peça ajuda de maneira explícita para demonstrar preocupação.

Nem toda solidão é uma escolha individual

Existe ainda um ponto que costuma ser deixado de lado quando se fala sobre solidão: o ambiente em que a pessoa vive.

Desemprego, violência, discriminação, desigualdade social, excesso de trabalho, competitividade e até a redução dos espaços comunitários podem dificultar a convivência e aumentar a vulnerabilidade.

Por isso, dizer simplesmente que alguém precisa “fazer mais amigos” ou “sair mais” pode ser uma forma de simplificar um problema que, muitas vezes, tem raízes sociais.

“O cuidado não pode partir da ideia de que basta o indivíduo mudar seu comportamento. Existem situações sociais que produzem afastamento e vulnerabilidade. Reconhecer isso é importante para que não transformemos sofrimento em culpa”, ressalta a psicóloga.

Uma rede de apoio não se mede pelo número de contatos

Uma rede protetora não é necessariamente aquela que reúne mais pessoas. É aquela em que existe espaço para falar sem medo de julgamento.

Perguntar de verdade como alguém está, perceber mudanças de comportamento, respeitar o tempo do outro e deixar claro que existe disponibilidade podem ser atitudes simples, mas concretas.

Os encontros presenciais também têm seu papel. Atividades culturais, esportivas e comunitárias podem ajudar na reconstrução dos vínculos, assim como a retomada de contatos que foram se perdendo com o tempo.

E nem sempre é preciso encontrar uma solução.

“Em muitos casos, não é necessário apresentar uma solução imediata. Escutar e permanecer próximo já pode ser uma forma concreta de cuidado”, destaca Jussara Aguiar.

Terapia ajuda, mas não substitui vínculos

A psicoterapia pode ser importante nesse processo. O acompanhamento profissional cria um espaço protegido para compreender sentimentos, trabalhar autoestima e autonomia, desenvolver formas mais saudáveis de comunicação e identificar situações que exigem atenção.

Mas a terapia não substitui a existência de relações humanas fora do consultório.

O cuidado em saúde mental não deve ser colocado exclusivamente sobre quem está sofrendo. Família, amigos, comunidade, profissionais e serviços de saúde também fazem parte dessa rede.

No Setembro Amarelo, a prevenção não pode se resumir a dizer para alguém “procurar ajuda”. É preciso construir relações e ambientes em que falar sobre sofrimento seja possível antes que ele se torne insuportável.

“É preciso criar condições para que falar sobre sofrimento seja possível antes que ele se torne insuportável”, afirma Jussara Aguiar.

Onde buscar ajuda

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.

Em situações de risco imediato ou quando houver manifestação de intenção suicida, é necessário buscar atendimento de urgência, acionar o SAMU, pelo 192, ou procurar uma UPA ou pronto-socorro.

Texto: Redação Coisas da Dina

Foto: Divulgação 


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