Entre o médico e o algoritmo: quem responde pelo erro na consulta com IA?

  • 28/08/2026

Entre o médico e o algoritmo: quem responde pelo erro na consulta com IA?

Quanto mais a tecnologia participa das decisões médicas, maior precisa ser a supervisão humana — e mais clara deve ser a responsabilidade de cada envolvido

A inteligência artificial já analisa imagens, organiza prontuários, identifica padrões, sugere diagnósticos e auxilia na escolha de tratamentos.

Ela pode encontrar detalhes que escapariam ao olhar humano e processar informações em poucos segundos. Mas pode também trabalhar com dados incompletos, reproduzir distorções ou apresentar uma resposta errada com absoluta segurança.

E aí surge a pergunta que interessa ao paciente: se o algoritmo errar e causar um dano, quem responde?

A decisão continua sendo humana

Desde 26 de agosto, estão em vigor no Brasil as regras estabelecidas pela Resolução nº 2.454/2026 do Conselho Federal de Medicina.

A norma permite que médicos utilizem inteligência artificial como apoio, mas não autoriza a transferência da decisão clínica para a máquina.

Diagnóstico, prognóstico, prescrição e tratamento continuam sob a responsabilidade do médico. O profissional pode aceitar ou rejeitar a recomendação produzida pelo sistema e não deve segui-la de maneira automática.

Isso muda a pergunta. Em vez de simplesmente perguntar se a IA errou, será necessário investigar como a tecnologia foi usada.

O médico confrontou a sugestão com os sintomas, o histórico e os exames do paciente? A ferramenta tinha validação adequada? O hospital avaliou seus riscos? O sistema apresentava limitações conhecidas? Houve falha no desenvolvimento, na atualização ou na implantação?

Dependendo das respostas, a responsabilidade poderá alcançar o médico, o hospital, a clínica, o desenvolvedor ou o fornecedor da tecnologia. Em alguns casos, mais de um participante poderá ter contribuído para o dano.

A inteligência artificial não pode funcionar como esconderijo. O médico não deve culpar o algoritmo por uma decisão que tomou sem análise. Da mesma forma, não seria correto atribuir ao profissional uma falha provocada exclusivamente por um sistema defeituoso utilizado com cuidado e dentro das regras.

O prontuário passa a contar outra história

A resolução determina que o uso da IA como apoio à decisão seja registrado no prontuário.

Esse registro permite saber qual ferramenta foi utilizada, para qual finalidade e qual decisão o médico tomou depois de avaliar a recomendação.

Não é um detalhe burocrático. Se houver um problema, será preciso reconstruir o caminho percorrido até aquela conduta.

Sem registro, sobra a palavra de cada envolvido. Com registro, torna-se possível identificar quem recomendou, quem avaliou e quem decidiu.

O paciente precisa ser informado

Quando a inteligência artificial tiver participação relevante no cuidado, no diagnóstico ou no tratamento, o paciente deverá receber essa informação de maneira clara.

Ele também poderá recusar o uso da ferramenta.

A comunicação de um diagnóstico, de um prognóstico ou de uma decisão terapêutica não pode ser entregue à IA sem a presença do médico.

Um aplicativo pode organizar dados. Pode sugerir hipóteses. O que não pode é assumir sozinho uma conversa que exige contexto, responsabilidade e humanidade.

Dados médicos não podem parar em qualquer aplicativo

Resultados de exames, imagens, histórico de doenças, informações genéticas e dados de prontuário estão entre as informações mais protegidas pela legislação brasileira.

Inserir nome, CPF, número de prontuário ou imagens identificáveis de um paciente em uma ferramenta aberta pode representar quebra de confidencialidade e tratamento inadequado de dados sensíveis.

Não basta o aplicativo ser rápido ou conhecido. A instituição precisa saber onde as informações serão armazenadas, quem poderá acessá-las, se serão utilizadas para treinar o sistema e como serão protegidas contra vazamentos.

A promessa de eficiência não elimina o dever de sigilo.

E se o médico perder habilidade por depender da IA?

Existe ainda um problema menos visível: o risco de o profissional se acostumar tanto com a ajuda da tecnologia que passe a apresentar um desempenho pior quando precisa trabalhar sem ela.

Esse fenômeno é chamado de deskilling, ou perda gradual de habilidade.

Um estudo publicado no The Lancet Gastroenterology & Hepatology analisou 1.443 colonoscopias realizadas sem auxílio de IA por 19 endoscopistas experientes em quatro centros da Polônia.

Depois que esses profissionais passaram a conviver rotineiramente com sistemas de inteligência artificial, a taxa de detecção de adenomas nas colonoscopias feitas sem o auxílio tecnológico caiu de 28,4% para 22,4%.

O estudo é observacional. Portanto, não prova sozinho que a IA provocou a queda nem autoriza generalizar o resultado para toda a medicina.

Mas apresenta um alerta importante: uma tecnologia criada para melhorar o desempenho também pode modificar a forma como o profissional observa, raciocina e decide.

Se o sistema aponta primeiro onde olhar, existe o risco de o olhar humano deixar de procurar com a mesma atenção.

A IA precisa ser questionada

Proibir a inteligência artificial não resolveria o problema. A tecnologia pode reduzir tarefas repetitivas, organizar grandes volumes de informações e ampliar a capacidade de análise.

O risco aparece quando a resposta chega antes do raciocínio e passa a ser aceita sem confronto.

Formar médicos para usar IA não significa apenas ensinar onde clicar. Significa preservar a capacidade de observar, comparar hipóteses, reconhecer limites e discordar da ferramenta.

Hospitais e clínicas também precisarão criar rotinas de auditoria, revisar o desempenho dos sistemas e manter treinamentos nos quais os profissionais exercitem suas habilidades sem auxílio automatizado.

O avanço tecnológico não elimina a responsabilidade. Ao contrário: cria novos participantes e obriga cada um a explicar o que fez.

A melhor inteligência artificial não será aquela que nunca erra — porque isso não existe. Será aquela cujas decisões possam ser examinadas, contestadas e rastreadas.

Quando a saúde de alguém está em jogo, todo erro precisa ter explicação. E toda decisão precisa ter responsável.

Texto: Redação Coisas da Dina

Foto: Ilustrativa 


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