Agosto está acabando. Mas de onde vem a fama de “mês do desgosto”
- 28/08/2026
Superstição atravessou o oceano, ganhou força no Brasil e ainda faz muita gente adiar casamentos, mudanças e decisões importantes
Tem gente que espera agosto terminar para comprar uma casa, fazer uma mudança, casar, abrir um negócio ou assinar um contrato.
Nesta sexta-feira, 28, o mês entra em sua reta final — mas ainda não acaba. Agosto de 2026 termina na segunda-feira, dia 31.
Para quem acredita em superstição, falta pouco. Mas por que um mês igual aos outros ganhou uma reputação tão ruim?
Não existe uma única explicação comprovada. A fama foi construída ao longo do tempo, misturando tradição portuguesa, acontecimentos históricos e aquela tendência humana de guardar na memória tudo o que confirma uma crença.
Primeiro, o casamento
A explicação mais repetida vem de Portugal, durante o período das Grandes Navegações.
Segundo a tradição oral, muitas embarcações deixavam o país em agosto. Os homens partiam para viagens longas e perigosas, sem garantia de retorno. Por isso, as famílias evitavam marcar casamentos para o período.
A advertência teria surgido primeiro como “casar em agosto traz desgosto”. Com o tempo, o casamento saiu da frase e o desgosto ficou com o mês inteiro.
Não há um documento histórico capaz de provar que o ditado nasceu exatamente dessa maneira. Trata-se de uma explicação transmitida por gerações e incorporada à cultura popular.
A crença chegou ao Brasil com os portugueses e foi ampliada. Deixar de casar já não bastava: passou-se a evitar viagens, mudanças de casa, compra de imóveis e outros compromissos considerados importantes.
O Brasil ajudou a piorar a reputação
Alguns acontecimentos políticos reforçaram a má fama de agosto no país.
Em 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas morreu no Palácio do Catete, encerrando seu segundo governo e provocando uma enorme comoção nacional. Sete anos depois, em 25 de agosto de 1961, Jânio Quadros renunciou à Presidência e abriu uma grave crise política.
Os dois episódios estão registrados nos acervos históricos da Fundação Getulio Vargas e passaram a ser frequentemente lembrados quando se fala no “mês do desgosto”.
Mas a superstição é anterior a esses fatos. Eles não criaram a fama de agosto; apenas deram novos argumentos a quem já desconfiava do calendário.
Guerras, acidentes, mortes e crises ocorridos no oitavo mês também foram acrescentados à lista ao longo do tempo. Os acontecimentos bons, naturalmente, raramente entram nessa contabilidade. Agosto ficou com a culpa e ninguém abriu espaço para a defesa.
E o “mês do cachorro louco”?
Agosto também ficou conhecido como o “mês do cachorro louco”, mas essa expressão tem outra origem.
A explicação popular está relacionada ao período de reprodução dos cães. O aumento das disputas entre machos favorecia brigas e mordidas. Em épocas nas quais a vacinação contra a raiva era menos disseminada, esses confrontos podiam facilitar a transmissão da doença.
A expressão permaneceu, embora a raiva não escolha mês. A prevenção depende da vacinação dos animais e dos cuidados adotados durante todo o ano.
Por que a superstição continua?
Superstições oferecem uma sensação de controle diante do que não pode ser previsto. Se uma decisão der errado, o mês, o número, o dia ou outro sinal externo aparece como explicação.
Também existe uma seleção involuntária da memória. Quem acredita que agosto traz problemas percebe e guarda os acontecimentos ruins ocorridos no período. Quando nada acontece, o mês passa sem registro.
A Associação Americana de Psicologia explica que práticas supersticiosas costumam ganhar força em situações de incerteza, justamente quando as pessoas gostariam de controlar o resultado.
Não existe evidência de que uma casa comprada em agosto tenha mais problemas, que uma mudança esteja condenada ou que um casamento realizado nesse mês dure menos.
Existe, sim, uma frase fácil de repetir, uma história transmitida por muitas gerações e uma coleção de coincidências.
Agosto tem 31 dias. Má reputação, sem dúvida. Poder para decidir o destino de alguém, não.
Na terça-feira começa setembro. Quem adiou a vida inteira por causa do calendário já pode procurar outra desculpa.
Texto: Redação Coisas da Dina
Foto: Gerada por inteligência artificial
Fontes: FGV CPDOC, Prefeitura de Erechim, Brasil Cultura e Associação Americana de Psicologia



