Solidão atinge uma em cada seis pessoas e acende alerta para a saúde pública
- 13/08/2026
Relatório da OMS mostra maior incidência entre os jovens; psicóloga analisa como a hiperconexão digital pode dificultar a construção de vínculos profundos
Uma em cada seis pessoas no mundo relata sentir solidão. Entre adolescentes e jovens, o índice chega a 21%, segundo relatório da Comissão sobre Conexão Social da Organização Mundial da Saúde.
A OMS não declarou formalmente uma “epidemia global da solidão”, como vem sendo divulgado. A organização classificou o problema como uma grave preocupação de saúde pública e pediu aos países que tratem a conexão social como prioridade.
A solidão não significa necessariamente estar sem companhia. A OMS a define como o sentimento doloroso provocado pela diferença entre as relações que uma pessoa possui e aquelas de que gostaria ou necessitaria.
O isolamento social, por sua vez, é uma condição objetiva: ocorre quando alguém mantém poucos vínculos, contatos ou interações. Uma pessoa pode viver sozinha sem se sentir solitária, assim como pode estar cercada de gente e experimentar uma profunda sensação de desconexão.
O relatório relaciona a solidão e o isolamento ao aumento do risco de depressão, ansiedade, doenças cardíacas, diabetes, declínio cognitivo e morte prematura. A estimativa é de que o problema esteja associado a cerca de 871 mil mortes por ano.
Conectados na tela, distantes nos vínculos
A psicóloga e psicanalista Danielle Vieira avalia que os dados expõem uma contradição da vida contemporânea: nunca houve tantas ferramentas de comunicação, mas isso não resultou necessariamente em relações mais próximas ou duradouras.
Segundo a especialista, aplicativos de namoro e redes sociais reforçam uma dinâmica baseada na rapidez, na recompensa imediata e na sensação de que sempre existe outra pessoa disponível a poucos movimentos na tela.
Essa lógica pode reduzir a disposição para enfrentar frustrações, diferenças e conflitos — elementos inevitáveis em qualquer relacionamento construído ao longo do tempo.
“A epidemia da solidão não é apenas um sintoma de isolamento geográfico ou social, mas o resultado de uma cultura que nos ensina a contornar o risco do afeto”, afirma Danielle.
Para a psicóloga, muitas pessoas desejam proximidade, mas evitam o compromisso emocional exigido pela construção da intimidade. O medo da rejeição, da dependência ou da perda pode levar ao afastamento antes mesmo que um vínculo se desenvolva.
A tecnologia, entretanto, não deve ser tratada como causa única. A própria OMS aponta fatores como pobreza, baixa escolaridade, problemas de saúde, luto, separações, mudanças de vida, discriminação e falta de espaços comunitários como elementos que também favorecem a solidão.
Presença exige tempo e tolerância
No livro Amor moderno: o nosso mundo evitativo, Danielle Vieira investiga como a velocidade das interações, a incerteza emocional e o medo da vulnerabilidade interferem na maneira como os relacionamentos são formados e mantidos.
A psicóloga defende que enfrentar a solidão exige mais do que ampliar o número de contatos. É necessário recuperar a capacidade de permanecer, fazer escolhas, sustentar conversas difíceis e aceitar que nenhuma relação real oferece satisfação permanente ou ausência de frustração.
Entre as medidas apontadas pela OMS estão o fortalecimento de espaços públicos, grupos comunitários, redes de apoio, políticas de conexão social e acompanhamento psicológico quando o sofrimento se torna persistente.
A saída, portanto, não está em abandonar a tecnologia, mas em impedir que quantidade de contatos seja confundida com qualidade de vínculo.
Texto: Redação Coisas da Dina
Foto: Divulgação



