​Ser avó é descobrir um novo lugar no amor

  • 26/07/2026

​Ser avó é descobrir um novo lugar no amor

Desde que meus filhos ainda estavam dentro da minha barriga, eu já pensava nos netos.

Talvez pareça cedo demais para imaginar isso quando você ainda está aprendendo a ser mãe, mas eu imaginava. Pensava em quando eles cresceriam, construiriam suas próprias famílias e me dariam netinhos ou netinhas. Como eu tinha dois meninos, confesso que sonhava especialmente com meninas.

E elas vieram. Primeiro a Maria Eduarda, depois a Patrícia e agora vem o João. Duas netas e um neto. Três crianças que me fizeram conhecer um amor que eu já sabia que existia, mas que só entendi quando passei para o outro lado dessa relação.

Ser avó é descobrir um novo lugar no amor. Não é amar mais do que amamos os filhos. É amar de outro lugar. Com outra perspectiva, outro tempo e talvez uma capacidade maior de perceber coisas que, quando éramos mães e pais, a correria da vida não nos permitia enxergar.

Com os netos, nós assistimos novamente à infância, mas sem carregar exatamente as mesmas responsabilidades da primeira vez. Podemos contar histórias, repetir tradições, ouvir, acolher, ensinar e, principalmente, estar presentes.

E presença importa.

Avós podem representar para as crianças uma importante fonte de afeto, estabilidade, memória familiar e apoio emocional. Especialistas em saúde mental infantil reconhecem que eles podem oferecer experiência, perspectiva e previsibilidade à vida dos netos, especialmente quando existe uma relação saudável e próxima.

Mas essa relação precisa ser construída.

Não basta ter o título de avó ou avô. É preciso conviver. É na conversa, no almoço, no passeio, na história repetida pela décima vez, no conselho, no telefonema, no abraço e até nas pequenas diferenças entre gerações que essa memória afetiva vai sendo criada.

Avós maternos e paternos pertencem à mesma história

Há um ponto sobre o qual penso muito. Quando um casal se separa, muitas vezes a criança permanece maior parte do tempo com a mãe. Naturalmente, isso pode aproximá-la mais da família materna.

Mas a separação do casal não deveria significar a separação da criança de metade de sua história. Pai continua sendo pai. Avós paternos continuam sendo avós. Assim como avós maternos não devem disputar espaço com os paternos. Uma criança não ganha nada quando os adultos transformam afeto em território.

Ao contrário, quando existem relações seguras e respeitosas, quanto mais pessoas sinceramente interessadas em amar, proteger e acompanhar aquela criança, maior pode ser sua rede familiar. Avó não deveria ser “a mãe da mãe” ou “a mãe do pai”.

É avó. Avô não deveria precisar disputar o direito de participar porque seu filho ou sua filha deixou de formar um casal com o outro genitor. A relação conjugal pode acabar. A relação da criança com sua família não deveria ser apagada como consequência.

Claro que existem situações de violência, abuso ou relações familiares prejudiciais em que limites são indispensáveis. Mas estou falando das famílias em que existe amor, cuidado e desejo verdadeiro de convivência. Nesses casos, impedir ou dificultar vínculos por ressentimentos entre adultos pode significar retirar da criança uma relação que também pertence a ela.

Os avós também recebem Costumamos falar muito sobre aquilo que os avós oferecem aos netos. Mas há outra parte dessa história.

Os netos também devolvem vida. Eles apresentam outras linguagens, outras tecnologias, outras músicas, outras maneiras de enxergar o mundo. Eles nos obrigam a continuar curiosos.

A convivência entre gerações pode ser uma troca muito rica. Crianças recebem memória e experiência. Avós recebem novidade, movimento e a oportunidade de olhar novamente para o mundo pelos olhos de alguém que está começando.

Não precisamos transformar os avós em segundos pais, nem colocar sobre eles a obrigação de criar os netos. Isso pode, inclusive, se tornar uma sobrecarga quando a responsabilidade integral pela criança é transferida aos avós. Estudos mostram que o contexto dessa convivência importa muito e que famílias em que os avós assumem totalmente a criação, muitas vezes em situações de crise familiar, enfrentam desafios específicos.

O que defendo é outra coisa: o direito à convivência quando ela é boa para a criança. O direito de existir uma relação própria entre avós e netos. Sem intermediários demais. Sem competição. Sem a ideia de que uma família precisa desaparecer para que a outra exista.

Eu, que um dia imaginava minhas netinhas enquanto carregava meus próprios filhos, hoje vejo a família continuar diante dos meus olhos. E compreendo uma coisa que antes eu só podia imaginar: os netos não chegam apenas para ocupar um lugar na família. Eles abrem um lugar novo dentro da gente.

Um lugar que não existia antes. Talvez seja isso ser avó. Olhar para uma criança e reconhecer nela um pedaço de quem veio antes, um pedaço de quem você ama e, ao mesmo tempo, uma pessoa inteiramente nova começando sua própria história.

No Dia dos Avós, eu não quero celebrar apenas uma data. Quero celebrar a convivência. Os avós presentes.

Os maternos e os paternos.

Os que contam histórias, os que cozinham, os que ligam, os que buscam na escola, os que moram longe e encontram maneiras de estar perto.

Porque família não deveria ser uma disputa por lados. Para uma criança, quando existe amor saudável, ter mais gente para amar e por quem ser amada nunca deveria ser uma perda.

Texto: Dina RACHID.


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