Copa do Mundo revela duas Salvadors: entre a razão e a paixão pelo Brasil
- 18/06/2026
O torcedor baiano vive uma relação fragmentada com a Copa do Mundo, alternando entre o ceticismo racional e a fé inabalável. Uma radiografia inédita realizada pela Duplamente Inteligência de Mercado nos dias 11 e 12 de junho de 2026, com o apoio do Bahia Notícias, investigou os meandros comportamentais da capital baiana através de 400 entrevistas.
O estudo revela que a distância entre as classes sociais em Salvador molda não apenas o bolso, mas também o nível de otimismo e a forma como a cidade se conecta com a Seleção Brasileira.
Ao cruzar as variáveis, os analistas detectaram um abismo psicológico marcante entre a elite e a grande massa popular.
O perfil integralmente otimista com o hexacampeonato pertence ao torcedor do Esporte Clube Vitória (58% de confiança no título), jovem, de 18 a 24 anos, das classes C2 e D, residente na Região 10 (Cajazeiras e Subúrbio). Na outra ponta, o público mais cético e propenso a prever a eliminação nas quartas de final (45%) é composto por torcedores do Esporte Clube Bahia, das classes A e B1, moradores das Regiões 1 e 2 (Graça, Corredor da Vitória e Itaigara).
Essa dinâmica acentua as diferenças no consumo. Se o Brasil falhar, a elite aponta a França (48%) como campeã, exibindo uma análise fria. Já as classes populares se amparam na mística da superação, projetando a vitória brasileira como reflexo de suas lutas diárias.
Para Adriano Sampaio (foto), CEO da Duplamente, a pesquisa expõe como as barreiras econômicas fraturaram a experiência de pertencimento cultural. Sampaio afirma que a Copa deixou de ser um catalisador de identidade homogênea em Salvador para se transformar em um espelho das segregações urbanas. O executivo complementa dizendo que enquanto a elite se retira para o conforto dos camarotes privados e do streaming individualizado na CazéTV (28%), é o subúrbio que sustenta a alma da festa, transformando a escassez em potência através das réplicas informais e das telas divididas.
A TV Globo mantém sua hegemonia absoluta nas Regiões 8, 9 e 10 com 62% de preferência doméstica, onde assistir em casa com a família é a regra para 48% da cidade. Nos bairros nobres, o consumo se divide entre os bares da Pituba e Rio Vermelho (28%), como o Tatu Bola e o Pai Inácio, e as arenas fechadas (24%), como o Ginga Salvador e a Arena Brasil.
O mercado informal surge como o grande vencedor econômico: 54% dos soteropolitanos vão recorrer às camisas réplicas ou tailandesas. Apenas 9% da elite planeja investir no manto oficial da Nike. O gap psicológico mais profundo reside na necessidade de compensação emocional. Para as classes populares, o torneio funciona como um intervalo na rotina de dificuldades, justificando o otimismo que desafia a própria lógica.
Mesmo com os números divididos, o espírito festivo da Bahia sempre encontra uma fresta para se manifestar. Seja ostentando aquela camisa de “qualidade” comprada na Avenida Sete ou dividindo o Wi-Fi com o vizinho, o importante é não deixar a cerveja acabar.
Foto: Divulgação


