ASCO 2026 destaca avanço de exame de sangue capaz de identificar mais de 50 tipos de câncer em fases iniciais
- 04/06/2026
A oncologia mundial vive um momento de transformação acelerada. E um dos assuntos que mais chamou atenção durante a ASCO 2026 — principal congresso internacional de oncologia realizado nos Estados Unidos — foi justamente o avanço dos chamados testes multicâncer feitos através de exame de sangue.
Entre os estudos apresentados no encontro da Sociedade Americana de Oncologia Clínica, um dos mais comentados pela comunidade científica foi o NHS-Galleri, maior estudo clínico já realizado no mundo para avaliar um teste capaz de detectar sinais associados a mais de 50 tipos de câncer antes mesmo do aparecimento dos sintomas.
A pesquisa foi conduzida no Reino Unido e acompanhou cerca de 143 mil pessoas entre 50 e 79 anos durante três anos. O exame utiliza análise de DNA tumoral circulante no sangue para identificar possíveis sinais de neoplasias em diferentes órgãos simultaneamente — uma proposta que começa a mudar a forma como a medicina pensa rastreamento e diagnóstico precoce.
Os resultados apresentados durante a ASCO reforçaram o potencial da tecnologia.
O estudo mostrou aumento significativo nos diagnósticos realizados em fases iniciais da doença, justamente quando as chances de tratamento curativo costumam ser maiores. Houve crescimento de 16% nos casos identificados nos estágios I e II e redução de 14% nos diagnósticos já em estágio IV, considerado mais avançado.
Além disso, os pesquisadores observaram aumento importante na quantidade de tumores detectados por rastreamento e redução de atendimentos emergenciais relacionados ao câncer.
O teste, chamado Galleri, pertence a uma nova geração de exames conhecidos como MCEDs (Multi-Cancer Early Detection), tecnologias desenvolvidas para identificar múltiplos tipos de câncer através de uma única coleta de sangue.
Diferentemente dos exames tradicionais — normalmente voltados para um único tumor específico — os testes multicâncer utilizam ferramentas de biologia molecular, sequenciamento genético e inteligência artificial para reconhecer padrões extremamente sutis associados ao desenvolvimento de diferentes neoplasias.
Para especialistas presentes no congresso, o estudo representa um dos movimentos mais relevantes da medicina de precisão nos últimos anos.
“O estágio em que o câncer é diagnosticado continua sendo um dos fatores mais importantes para o prognóstico do paciente. Quanto mais cedo identificamos a doença, maiores costumam ser as possibilidades de tratamento e controle”, explicou o oncologista Raphael Parmeggiani, vice-presidente de Assuntos Científicos em Oncologia da América Latina da Centogene.
Outro dado que chamou atenção dos pesquisadores foi a alta especificidade do exame, superior a 99%, indicando baixa taxa de resultados falso-positivos — um dos grandes desafios históricos dos exames de rastreamento oncológico.
Apesar do entusiasmo gerado pela pesquisa, os próprios cientistas ressaltam que a tecnologia ainda precisa avançar em novas etapas de validação antes de ser incorporada amplamente aos sistemas de saúde. O estudo não atingiu todos os desfechos estatísticos inicialmente previstos e ainda serão necessários acompanhamentos mais longos para avaliar impactos concretos sobre mortalidade, custo-efetividade e implementação populacional em larga escala.
Mesmo assim, dentro da ASCO 2026, o NHS-Galleri passou a ser visto como um marco importante no futuro da detecção precoce do câncer.
Nos bastidores do congresso, especialistas comentaram que a oncologia começa a entrar numa nova fase, em que o rastreamento pode deixar de depender apenas de exames de imagem tradicionais para incorporar cada vez mais ferramentas baseadas em biologia molecular e análise genética.
Na prática, isso significa que a medicina caminha para um cenário em que muitos tipos de câncer poderão ser identificados de forma mais precoce, menos invasiva e potencialmente mais eficiente.
Ainda não existe previsão de utilização ampla desses exames na população geral. Mas os dados apresentados nos Estados Unidos reforçam uma tendência clara dentro da oncologia moderna: o futuro do combate ao câncer passa cada vez mais pela antecipação da doença antes que ela avance silenciosamente.
Texto: Redação Coisas da Dina
Foto: Reprodução / Internet
Fonte: ASCO 2026 / NHS-Galleri / Centogene


