Saúde mental de crianças e adolescentes exige mudança de olhar
- 07/05/2026
Os dados mais recentes sobre saúde mental de adolescentes no Brasil deixam de ser apenas números e passam a indicar um padrão que precisa ser compreendido com mais profundidade. Uma parcela significativa de jovens relata tristeza frequente, irritação constante e, em alguns casos, sensação de vazio ou falta de sentido.
Quando esses sinais aparecem de forma tão recorrente, o foco não pode estar apenas na adolescência. Esse é o momento em que o problema se manifesta com mais intensidade, mas o processo começa muito antes, durante o desenvolvimento emocional ainda na infância.
A construção da saúde mental não acontece de forma automática. Ela depende de ambiente, de vínculos consistentes, de escuta qualificada e da capacidade de ensinar a criança a lidar com o que sente. Sem esse repertório, o adolescente chega a uma fase mais exigente da vida sem ferramentas internas para sustentar pressões, frustrações e conflitos.
O cenário atual amplia essa complexidade. Crianças e adolescentes estão inseridos em um ambiente mais acelerado, com excesso de estímulos e alta exposição, especialmente nas redes digitais. Ao mesmo tempo, há uma redução da presença real nas relações e menos espaço para elaboração emocional no cotidiano.
Esse desequilíbrio impacta diretamente o comportamento. A dificuldade de concentração, a irritabilidade constante, o isolamento e até manifestações físicas passam a ser formas de expressão de um sofrimento que muitas vezes não consegue ser nomeado.
A escola, nesse contexto, assume um papel que vai além do ensino formal. Ela se torna um espaço estratégico para identificar sinais, promover convivência e desenvolver habilidades socioemocionais. Mas esse trabalho não pode ser isolado. A participação da família é determinante na construção de um ambiente que permita escuta, acolhimento e orientação.
Ainda assim, o Brasil avança pouco na prevenção. A lógica predominante continua sendo reativa: busca-se ajuda quando o problema já está instalado. O acesso a serviços especializados também é limitado, o que dificulta intervenções precoces e amplia o impacto desses quadros ao longo do tempo.
Quando se observa o conjunto — ambiente, ausência de preparo emocional e dificuldade de acesso a cuidado — o resultado deixa de ser inesperado. Ele passa a ser consequência de um modelo que ainda não incorporou a saúde mental como parte central do desenvolvimento.
O que está colocado é um aviso claro. A forma como crianças e adolescentes estão sendo preparados para lidar com o próprio mundo interno precisa ser revista.
Porque o que não é estruturado na base… inevitavelmente aparece depois.
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Locução: Dina Rachid



