Plantas também se comunicam e os insetos entendem tudo
- 18/02/2026
Muito antes da presença humana no planeta, plantas e insetos já mantinham uma relação complexa, baseada em cooperação, defesa e, em alguns casos, puro engano. O que parece silêncio na natureza, na verdade, é um intenso diálogo químico que sustenta a polinização, o equilíbrio dos ecossistemas e a biodiversidade.
Segundo o engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa Soja, Décio Luiz Gazzoni, membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS), plantas e insetos convivem há centenas de milhões de anos em interações que vão da predação ao mutualismo. Para ele, essa relação está longe de ser passiva. Trata-se de um sistema altamente sofisticado de comunicação, moldado pela evolução.
De acordo com o pesquisador, as plantas produzem sinais específicos que são interpretados pelos insetos, desencadeando comportamentos bem definidos. Um dos exemplos mais conhecidos desse processo é a polinização. Nesse caso, as plantas utilizam cores, formatos, aromas e até estruturas invisíveis ao olho humano para atrair seus polinizadores.
As chamadas guias de néctar são um exemplo curioso desse mecanismo. São marcas presentes nas flores que funcionam como verdadeiras pistas de pouso, orientando os insetos até o néctar e os órgãos reprodutivos da planta. Segundo Gazzoni, essa comunicação ocorre principalmente por meio da chamada linguagem química, extremamente precisa e eficiente.
Os aromas florais também exercem papel central nesse diálogo. Compostos orgânicos voláteis são liberados no ambiente e carregados pelo vento, permitindo que insetos localizem as flores a grandes distâncias. Esse mecanismo favorece relações mais especializadas entre plantas e polinizadores e contribui para a polinização cruzada, essencial para a reprodução vegetal.
Mas nem tudo é cooperação nesse universo invisível. Quando atacadas por insetos herbívoros, muitas plantas ativam estratégias de defesa altamente elaboradas. Uma delas é a liberação de substâncias químicas específicas que funcionam como um verdadeiro pedido de socorro. Esses sinais são percebidos por predadores naturais das pragas, que passam a atuar no controle biológico.
Em alguns casos, esses mesmos compostos químicos alertam plantas vizinhas, que ativam seus próprios sistemas de defesa antes mesmo de sofrerem o ataque. É uma rede de comunicação silenciosa, porém extremamente eficaz.
A evolução, no entanto, também favoreceu os insetos. Alguns aprenderam a interceptar, suprimir ou até imitar os sinais emitidos pelas plantas para obter vantagens. Um exemplo clássico citado pelo pesquisador é o de certas orquídeas que imitam feromônios sexuais de insetos, atraindo-os para uma falsa cópula que acaba garantindo a polinização da planta.
Para Décio Luiz Gazzoni, compreender esse diálogo invisível é fundamental não apenas para a ciência, mas para a sociedade como um todo. Segundo ele, sem essa comunicação entre plantas e insetos, a vida no planeta seria completamente diferente.
É com esse objetivo que a Embrapa Soja mantém um Laboratório de Ecologia Química, dedicado ao estudo desses mecanismos e à aplicação desse conhecimento no desenvolvimento de sistemas agrícolas mais sustentáveis, eficientes e alinhados com a preservação ambiental.



