Artigo: Quando a ciência também desfila, mas quase ninguém aplaude
- 17/02/2026
O Brasil sabe aplaudir. Aplaude o samba, a avenida, a fantasia, o corpo que dança, a voz que canta. Mas ainda aprende, lentamente, a aplaudir a mulher que pesquisa, que insiste, que estuda por décadas em silêncio para devolver movimento, dignidade e esperança a quem perdeu quase tudo.
Enquanto o Carnaval elege musas, rainhas e símbolos, existe uma mulher que deveria ser tema de escola de samba, enredo, estandarte e aplauso de pé. O nome dela é Tatiana Coelho de Sampaio.
Tatiana é bióloga, cientista, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisadora reconhecida internacionalmente na área de biologia da matriz extracelular. Foi ela quem liderou os estudos que resultaram na polilaminina, uma substância desenvolvida a partir de décadas de pesquisa sobre lamininas, proteínas fundamentais para a regeneração do sistema nervoso. Seu trabalho abriu uma nova possibilidade no tratamento de lesões da medula espinhal, incluindo casos de paraplegia e tetraplegia, algo que até pouco tempo atrás parecia inalcançável.
Em janeiro deste ano, a Anvisa autorizou o início da primeira fase de estudos clínicos com a polilaminina em humanos. Um marco científico brasileiro. Um passo histórico. Um avanço que coloca o país no centro de uma discussão global sobre regeneração neural e medicina de ponta.
E, ainda assim, o nome de Tatiana quase não circula fora dos círculos científicos.
Essa invisibilidade não é acaso. É estrutura. É a mesma estrutura que, por séculos, calou mulheres, minimizou conquistas femininas e transformou genialidade em rodapé. Nós, mulheres, aprendemos desde cedo a falar baixo, a pedir licença, a provar dez vezes mais. Quando erramos, somos julgadas. Quando acertamos, seguimos em silêncio.
Tatiana não devolveu apenas movimentos a corpos feridos. Ela devolveu esperança. E esperança é uma das matérias-primas mais raras da vida humana. Quantas pessoas voltaram a sentir partes do corpo? Quantas famílias passaram a enxergar futuro onde antes só havia luto antecipado? Isso também é milagre. Mas é um milagre construído com ciência, método, ética e persistência.
Enquanto o Brasil vibra com fantasias e carros alegóricos, é preciso dizer com clareza que a ciência também desfila, mesmo que quase ninguém bata palma. E quando ela desfila conduzida por uma mulher, negra ou branca, jovem ou madura, ela carrega não apenas dados e protocolos, mas séculos de resistência.
Tatiana Coelho de Sampaio merece honrarias. Merece ser reconhecida como símbolo nacional. Merece aplauso dos homens e das mulheres. Merece que outras mulheres a aplaudam, porque aplaudir uma mulher não diminui ninguém. Ao contrário, amplia o caminho para todas.
Se o Carnaval é o espelho da alma brasileira, talvez esteja na hora de refletirmos melhor quem escolhemos exaltar. Há mulheres que dançam maravilhosamente bem. E há mulheres que fazem o mundo andar de novo.
Ambas são importantes. Mas algumas salvam vidas.
E isso, definitivamente, deveria virar enredo.
Por Dina Rachid



